Por que irei à Copa sem culpa caso consiga ingressos

Andei me perguntando se seria hipocrisia minha criticar a FIFA e mesmo assim querer assistir a um jogo da Copa no Brasil. Sim, é hipocrisia minha, que talvez fique maior ainda por eu ter me colocado na lista de interessados em comprar ingressos para jogos da Copa.
Mas eu explico o motivo pelo qual eu me coloquei na lista:
Ver um jogo da Copa é um sonho de infância, e eu não tenho muitas oportunidades de realizar sonhos de infância. Então, vou sem culpa. E que a grana que eu gastar no ingresso componha o salário de alguém que trabalhou lá.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014 Leave a comment

Sobre partes do corpo que dão sinais de que o tempo vai virar e como eu nunca tive isso

Quase todo mundo conhece uma pessoa que tem uma tia ou uma avó que tem alguma parte do corpo que dá sinais quando o tempo vai virar. Eu não; mas sempre quis conhecer. E mais! Sempre quis ter uma parte do corpo que doesse quando fosse chover ou quando fosse ficar frio, ou calor, ou muito seco, não sei.
Minhas juntas não dóem, meu bico de papagaio eu ainda não tenho, meu reumatismo também não.
Pois bem; há alguns meses eu cortei minha mão num copo enquanto eu lavava a louça. Foi ferimento feio, fundo, o copo virou estaca e entrou no lado da mão, criando assim uma cicatriz bastante parecida com a que eu tenho na outra mão, mas do lado oposto.
Já tá curado o ferimento. Fez cicatriz bonita, meio grande, daquelas quelóides que dizem "me firo e sigo em frente" ou qualquer merda assim.
E aí eu comecei a perceber que às vezes dói... é uma dor estranha, que não machuca, mas que incomoda. Ainda não consegui identificar as ocasiões em que a dor aparece, mas vou prestar atenção. Hoje tá doendo um pouco, vamos ver se chove.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014 Leave a comment

Não passaram de passarinhos

As pessoas tem mania de quererem ser especiais ou únicas na vida de alguém, e acabam por deixar passar as coisas simples que fazem com que momentos - veja bem: momentos - sejam especiais. Ficam numa egomania fudida tentando alcançar o posto de cara da vida da mina ou mina da vida do cara e quando percebem não passaram de passarinhos.
Sei lá, só uma divagação.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014 Leave a comment

Divagação I

E bem sei eu, sentindo no fundo da alma, que dia desses irei para o Tibet, e lá passarei ao menos um ano vivendo entre monges, buscando sabe-se lá o quê.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014 Leave a comment

Sobre como eu ajudei uma projeção arquetípica

Foi um sonho.
Era um banheiro com as paredes cheias de mofo perto do teto. Não havia janela alguma, tinha vazamento na privada, o chuveiro era dos mais vagabundos, e a mangueira do chuveiro parecia enferrujada na ponta, logo depois do nó que deram na mangueira pra não vazar água.
Tentei, em vão, desatar o nó, e desisti. Eis que surge a idosa japonesa... era bem velhinha ela, tinha pelos no queixo, caminhava com passos bem curtos e na mão carregava uma lâmina de barbear velha, com a mesma ferrugem exibida na ponta da mangueira.
A senhora olhou pra mim e só conseguiu dizer uma coisa: “Eu não consigo, eu não consigo!”. Claramente percebia-se que a senhora era frustrada, pois se boicotava.
Não sei bem como o sonho terminou, mas tenho a impressão de que eu conversei algo com a velhinha e a ajudei a desatar o nó da mangueira.


Pra mim, aquela senhora era uma projeção arquetípica minha, a expressão derrotada que se lamenta de não ter feito o que nem tentou fazer.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014 Leave a comment

Interlúdio Um

Naquele momento eu não sabia de absolutamente nada além de que eu teria que me desvencilhar de um bloqueio mental que me impedia de me definir. Era meu único objetivo na vida, não havia mais nada que eu pudesse fazer. Estávamos eu, ela e minhas coisas a serem definidas (ou pelo menos expressas). Mas como é que eu ia definir algo vazio?
Quando aquela porta se abriu eu fiquei gelado, mas não com medo. Fiquei uns 10 minutos parado, olhando pro nada, pensando em como dar o primeiro passo em direção à porta, já me boicotando, dizendo que eu nunca ia conseguir dar os passos, que a porta ia se fechar quando eu tivesse a um passo de atravessá-la, coisas assim.
Mas aí pensei: que porra eu tenho a perder?



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Como percebeu que precisava de coisas

Bléssio fechou a porta, e se sentiu como estivesse em uma câmara de vácuo... todo o seu corpo sendo pressionado, tragado, sei lá que porra, pelo vácuo. Então, deu-se conta de onde estava: uma sala branca com um balcão de aço detalhado com madeira escura. Olhou para os lados, procurando algo ou alguém, e não achou nada.
Quando se recuperou da sensação de vácuo, resolveu caminhar, e neste momento uma figura feminina surge atrás do balcão com uma expressão completamente aconchegante no rosto. Bléssio obviamente nunca havia visto a criatura, mas teve uma sensação familiar em relação àquela moça, algo que trazia alento, era uma presença suave, com cheiro de bambu misturado com veludo.

- Oi – disse com suavidade a moça.
- O...oi? - respondeu Bléssio.
- Deixa eu adivinhar: você tá confuso.
- Pra caralho – ele disse.
- E porque é que você tá confuso?
- Vejamos: eu não tenho a mínima idéia de onde eu estou, quem eu sou, o quê eu sou... eu só sei meu nome. Minha confusão envolve tudo menos o meu nome, porque isso eu já sei.
- Tá. E essa confusão te incomoda?
- Deveria, ninguém gosta de ficar confuso, mas isso não me incomoda. Eu tenho certeza – não me pergunte como – que eu, saindo daqui, vou conseguir progredir.
- E quem é que disse que você vai sair daqui? E o progresso... o que é o progresso? Você saiu da sala de chegada, isso foi progresso. Agora tá aqui conversando comigo, e isso também é progresso, Bléssio. - disse ela.
- Meu...nome. Eu acabei de criar meu nome, como é que você poderia sabê-lo?
- Ah, meu caro, eu sei de bastante coisa. Mas não se iluda: não me serve de nada. Tudo o que eu sei tem tanta utilidade quanto um palito de fósforo usado... é legal saber que existe, é legal saber como funciona, mas já não serve pra nada, a não ser como cotonete improvisado, se você enrolar um pouco de algodão na ponta.
- Que é que você sabe?
- Coisas. Eu sei coisas... sobre as pessoas. Não conheço a maioria dessas pessoas, mas sei coisas delas.
- Que tipo de coisas? - perguntou Bléssio,
- Coisas existenciais, não sei se dá pra definir assim. Tipo “coisas que eu quero” ou senão “coisas que me deixam pra baixo” ou senão “coisas que eu me arrependeria se eu fizesse mas foda-se vou fazer assim mesmo. Sei lá, coisas...
- E que tipo de coisas você sabe sobre mim?
- Sei seu nome... sei que você não viveu seu passado. Sei alguns dos seus medos, algumas das suas vontades, e você nem sabe essas coisas ainda.
- Como você sabe coisas sobre mim se nem eu sei essas coisas ainda? - ele perguntou, legitimamente curioso
- Você vai me dizer que coisas são essas, daqui a pouco - a moça disse, com um sorriso sagaz no rosto.
- Aí é fácil...
- Mas fica mais! O quê você quer? - ela indagou.
- Aah, começamos. O que eu quero? Não tenho muito o que querer na situação em que eu me encontro. Quero caminhar, acho.
- Acha? Você precisa ter certeza das coisas, principalmente das suas coisas. É importante a gente ter certeza das coisas. Me diz mais coisas. Sei que você não sabe de nada, mas se você se abrir, se largar a tensão, as coisas aparecem, e porra, você tem coisa pra caralho - disse a moça docemente, com entonação melódica em sua voz.
- Mais coisas... preciso sintetizar essas coisas. Eu posso inventar as coisas?
- Bléssio... - ela pronunciou lentamente e em monotom.
Durante alguns segundos de silêncio, ele esperou a moça concluir. Como ela não concluiu nada, ele emendou, incerto:
- Eu...
- Sim, você! Você inventou seu nome! Se inventa nome inventa coisa! Só deixa sair... vamos, sem vergonha, cara - respondeu a moça do balcão, exalando alegria.
- Indiferença. Prepotência. Ambição. Música. Solidão. Definição. Conclusão. Orgulho. - ele completou, como se num vômito verbal, enquanto as palavras apareciam escritas em um tipo de holograma onipresente, coisa fina.
- Essas coisas são você?
- Não, são coisas. Mas sairam de mim, então devem fazer parte de mim de algum jeito.
- Sim, fazem. Mas não te definem.
- E essas coisas me deixam um pouco com medo, não sei do quê.
- Ah, o medo. É normal, viu? Eu tenho, seu receptor tem, você tem...
- Preciso saber das minhas coisas, quero saber o que é que me define, e o que é só uma coisa que eu tenho, que não necessariamente me define. Eu sinto que eu já nasci, morri e renasci uma porrada de vezes, sinto que eu tenho coisa pra caralho, mas sei lá, não consigo definir nada...
- Ok. Então já sei pra onde te mandar. - disse a moça, enquanto uma porta de metal se abria atrás do balcão.

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