Bléssio fechou a porta, e se sentiu
como estivesse em uma câmara de vácuo... todo o seu corpo sendo
pressionado, tragado, sei lá que porra, pelo vácuo. Então, deu-se
conta de onde estava: uma sala branca com um balcão de aço
detalhado com madeira escura. Olhou para os lados, procurando algo ou
alguém, e não achou nada.
Quando se recuperou da sensação de
vácuo, resolveu caminhar, e neste momento uma figura feminina surge
atrás do balcão com uma expressão completamente aconchegante no
rosto. Bléssio obviamente nunca havia visto a criatura, mas teve uma
sensação familiar em relação àquela moça, algo que trazia
alento, era uma presença suave, com cheiro de bambu misturado com
veludo.
- Oi – disse com suavidade a moça.
- O...oi? - respondeu Bléssio.
- Deixa eu adivinhar: você tá
confuso.
- Pra caralho – ele disse.
- E porque é que você tá confuso?
- Vejamos: eu não tenho a mínima
idéia de onde eu estou, quem eu sou, o quê eu sou... eu só sei meu
nome. Minha confusão envolve tudo menos o meu nome, porque isso eu
já sei.
- Tá. E essa confusão te incomoda?
- Deveria, ninguém gosta de ficar
confuso, mas isso não me incomoda. Eu tenho certeza – não me
pergunte como – que eu, saindo daqui, vou conseguir progredir.
- E quem é que disse que você vai
sair daqui? E o progresso... o que é o progresso? Você saiu da sala
de chegada, isso foi progresso. Agora tá aqui conversando comigo, e
isso também é progresso, Bléssio. - disse ela.
- Meu...nome. Eu acabei de criar meu
nome, como é que você poderia sabê-lo?
- Ah, meu caro, eu sei de bastante
coisa. Mas não se iluda: não me serve de nada. Tudo o que eu sei
tem tanta utilidade quanto um palito de fósforo usado... é legal
saber que existe, é legal saber como funciona, mas já não serve
pra nada, a não ser como cotonete improvisado, se você enrolar um
pouco de algodão na ponta.
- Que é que você sabe?
- Coisas. Eu sei coisas... sobre as
pessoas. Não conheço a maioria dessas pessoas, mas sei coisas
delas.
- Que tipo de coisas? - perguntou
Bléssio,
- Coisas existenciais, não sei se dá
pra definir assim. Tipo “coisas que eu quero” ou senão “coisas
que me deixam pra baixo” ou senão “coisas que eu me arrependeria
se eu fizesse mas foda-se vou fazer assim mesmo. Sei lá, coisas...
- E que tipo de coisas você sabe sobre
mim?
- Sei seu nome... sei que você não
viveu seu passado. Sei alguns dos seus medos, algumas das suas
vontades, e você nem sabe essas coisas ainda.
- Como você sabe coisas sobre mim se
nem eu sei essas coisas ainda? - ele perguntou, legitimamente curioso
- Você vai me dizer que coisas são
essas, daqui a pouco - a moça disse, com um sorriso sagaz no rosto.
- Aí é fácil...
- Mas fica mais! O quê você quer? -
ela indagou.
- Aah, começamos. O que eu quero? Não
tenho muito o que querer na situação em que eu me encontro. Quero
caminhar, acho.
- Acha? Você precisa ter certeza das
coisas, principalmente das suas coisas. É importante a gente ter
certeza das coisas. Me diz mais coisas. Sei que você não sabe de
nada, mas se você se abrir, se largar a tensão, as coisas aparecem,
e porra, você tem coisa pra caralho - disse a moça docemente, com
entonação melódica em sua voz.
- Mais coisas... preciso sintetizar
essas coisas. Eu posso inventar as coisas?
- Bléssio... - ela pronunciou
lentamente e em monotom.
Durante alguns segundos de silêncio,
ele esperou a moça concluir. Como ela não concluiu nada, ele
emendou, incerto:
- Eu...
- Sim, você! Você inventou seu nome!
Se inventa nome inventa coisa! Só deixa sair... vamos, sem vergonha,
cara - respondeu a moça do balcão, exalando alegria.
-
Indiferença. Prepotência. Ambição. Música. Solidão. Definição.
Conclusão. Orgulho. - ele completou, como se num vômito verbal,
enquanto as palavras
apareciam escritas em um tipo de holograma onipresente, coisa fina.
-
Essas coisas são você?
-
Não, são coisas. Mas sairam de mim, então devem fazer parte de mim
de algum jeito.
-
Sim, fazem. Mas não te
definem.
- E
essas coisas me deixam um pouco com medo, não sei do quê.
- Ah,
o medo. É normal, viu? Eu tenho, seu receptor tem, você tem...
- Preciso saber das minhas coisas,
quero saber o que é que me define, e o que é só uma coisa que eu
tenho, que não necessariamente me define. Eu sinto que eu já nasci,
morri e renasci uma porrada de vezes, sinto que eu tenho coisa pra
caralho, mas sei lá, não consigo definir nada...
- Ok. Então já sei pra onde te
mandar. - disse a moça, enquanto uma porta de metal se abria atrás
do balcão.
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