Intro


Em uma sala iluminada por parcas luzes na parede fica em evidência uma mesa no centro do cômodo, e ao lado da mesa um sujeito bastante magro de cabelos ensebados com o olhar perdido e desesperançoso, como se fosse um náufrago em uma ilha já cansado de esperar por um navio de resgate, mas não era nada disso.
Ele estava imóvel pois só tomara consciência de si naquele momento; em uma sucessão bastante rápida de imagens mentais, ele se viu despindo-se de uma meia listrada em preto e vermelho, de um livro com a capa amarela e de uma garrafa de destilado, virando a garrafa de cabeça para baixo e deixando o líquido escorrer.
A primeira coisa que sentiu foi um alívio indescritível quando a primeira carga de ar passou por suas narinas; depois ficou confuso pra caralho, porque ele tava ali, largado numa sala que parecia sala de interrogatório, sem saber quem era e o motivo de estar lá.

Um estrondo repentino acontece, e a claridade que entrou pela porta recém aberta encheu a sala, e fez com que o sujeito estreitasse os olhos incomodados pela luz, ainda que se sentisse acolhido. Pela porta entra uma figura masculina, de porte médio e feição séria; caminhou em direção à mesa, olhando sério para o primeiro sujeito. Colocou sobre a mesa o copo e a pasta que carregava, e então fez sinal para o rapaz sentar-se, e também sentou-se.

O rapaz sentou-se, intimidado porém sem mostrar nervosismo. Olhou nos olhos do cara da pasta e permaneceu em silêncio.

- Afinal, quem é você? - perguntou o cara da pasta, batendo incisivamente na mesa.
- Eu não sei – respondeu o rapaz magro.
- Aaah, isso é típico! Faz as merdas que faz só pra chegar no fim da linha e decidir mudar a porra toda , achando que isso vai transformar seu passado ou que vir pra cá vai te dar uma vida nova do nada... cara, suas decisões foram tomadas! Não é porque elas estão no passado que você vai se livrar delas.
- Antes de qualquer coisa: eu realmente não sei quem eu sou e onde eu estou. Eu abri os olhos e tava aqui.
- E quem você quer ser, onde você quer estar?
- Eu só posso ser eu mesmo, não é?
- Ahaaaa! Sim, você só pode ser você mesmo, e isso é uma verdade da qual você não consegue escapar, e olha que você já tentou, né?
- Como é que eu vou saber? - perguntou o cara, na hora lembrando das imagens que surgiram em sua mente segundos após acordar.
- Você deve ter trazido alguma coisa, nem que seja meia memória. Não dá pra chegar aqui sem nada e puf, começar a existir.
- É, faz um certo sentido. Mas essas coisas que eu trouxe, essas meia-memórias, não são minhas, entende? Elas existem na minha mente mas minha mente não as reconhece. E porque porras eu tô conversando com você?
- Bom...é sua única opção no momento.
- Quem é você?
- Nesse lugar ninguém sabe bem ao certo quem é, cara.
- E quem eu sou? Como é que você sabe coisas sobre mim?
- Eu não sei quem você é, já te disse isso. E eu não sei nada sobre você, eu só joguei palavras ao vento, coisas comuns, sei lá.
- Como eu me chamo?
- Até agora você não me disse seu nome. Tudo bem, você não se lembra do seu nome, e você talvez não tenha um, talvez até nunca tenha tido um nome.
- Mas eu posso escolher um? Posso me dar um nome e tal?
- Pode ué. Não tem necessidade, mas pode sim.

O rapaz magro olhou para o lado e viu uma caneta de quadro branco. Bateu os olhos pela sala e não achou quadro algum.
Então, tirou a tampa da caneta e fez menção de caminhar até a parede, quando em voz alta resmungou:
- Não, não vou gritar desse jeito.
Sem vacilar, abriu a pasta do outro cara, tirou um papel de dentro, alisou o papel com a mão, rabiscou algo, dobrou o papel e colocou-o em cima da mesa, deslizando o papel para o dono da pasta.
Fechou a caneta, colocou a caneta sobre a mesa, fez um sinal de despedida com as mãos sobre a testa, virou-se, caminhou até a porta, abriu-a com graça e saiu.
O dono da pasta observou a cena com encanto, e ao abrir o papel, leu:
BLÉSSIO. É QUEM EU SOU.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Postar um comentário